domingo, 12 de julho de 2009

Quem são os oprimidos? Uma questão de Alteridade!


"A partir dos anos 80 ficou claro para muitos teólogos - nem todos, claro - que não só os povos gritam, as águas gritam, as florestas, os animais, a Terra grita, porque são todos oprimidos. Solos são devastados, os ares são poluídos. O planeta é agredido de todas as formas". Leonardo Boff
Essa é a questão fundamental para que o rumo da Filosofia e sua eterna, e quase inalcançável busca pela ética, mude. Quem são os oprimidos? A quem se estende a nossa alteridade? Afinal, o que é alteridade e o que é opressão?
Alteridade é quando conseguimos compreender o "Outro", nos colocarmos em seu lugar, nos compreendermos como ele se compreende, é ouvi-lo, é sentir seu desejo pela vida e pela liberdade. Em nossa dominação pela Terra e por tudo que nela existe, nós não exercitamos a alteridade, mas sim, a dominação, de forma bruta tanto para com aqueles que julgamos inferiores, como para conosco mesmo. Ação e reação, o que enfrentamos hoje nos aparece na forma da terceira lei de Newton: "Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade". Somo incapazes de pensar na Natureza como um "Outro", como aquele a quem oprimimos e subjugamos, somos incapazes de ver os animais como um "Outro Ser" do qual nos apropriamos e oprimimos, porque somos incapazes de exercitar a alteridade para com eles.
Talvez com poucas exceções, a grande maioria dos autores que fala em alteridade, aponta como "Outro" apenas o ser social, aquele que se relaciona, porém, esse mesmo "Outro" que se comunica e troca experiências é, na ponta dessa corrente, um ser oprimido devido à opressão que ele, e quem o defende, causa ao esquecer que a água igualmente grita, que os animais igualmente gritam por serem eles, todos oprimidos.
Por isso a necessidade de nos debruçarmos sobre a Filosofia e encararmos com coragem os desafios que ela nos impõe, para que alcancemos uma ética que mostre que o "Outro" não é necessariamente o "Outro Humano", mas um "Outro Ser" pelo qual, igualmente, temos a obrigação moral de oferecer respeito.
Merleau Ponty nos diz: " Na experiência do diálogo, constitui-se entre mim e o outro um terreno comum, meu pensamento e o dele formam um só tecido, minha fala e as dele são invocadas pela interlocução, inserem-se numa operação comum da qual, nenhum de nós é criador.Há um entre os dois, eu e o outro somos colaboradores, numa reciprocidade perfeita coexistindo no mesmo mundo."
Mas as águas gritam, os animais gritam e nós fechamos nossos ouvidos para o sofrimento deles porque acreditamos que apenas o ser social, apenas o ser comunicador tem o direito de coexistir ao nosso lado, no entanto, eles não se calam. Mas ignoramos porque ouvindo-os, seremos obrigados a novas atitudes, a novas reflexões, a novos conceitos.
Ouvindo-os, nos aproximaremos de novas questões morais e éticas, e finalmente, da inclusão desse critério de alteridade aos demais seres que tanto marginalizamos e nessa nova práxis libertadora , seremos apresentados a verdadeira liberdade dos oprimidos.
Essa negação do critério de alteridade para com os animais, transformando-os em não-outro ou não-ser, ocorre devido à dominação que nós, animais humanos, os submetemos; ao subjugá-los como fazemos, lhes negamos o direito de liberdade e os oprimimos. Não nos colocamos no lugar de seres que dominamos, isso é opressão. Não ouvimos seus gemidos, nem sentimos suas dores, apenas os oprimimos e não podemos deste modo, nos considerarmos seres éticos na busca pela libertação e pela alteridade, o que nos coloca em contradição com aquilo que buscamos, ou seja, a própria Ética. A conseqüência dessa exclusão é a opressão e as mudanças a qual temos assistido todos os dias, na reação de um Planeta que igualmente no todo, é considerado um não-ser, sendo violentado diariamente pelo desejo humano.
Essa "ética" atual é na verdade uma ética injusta e irresponsável, que aniquila não apenas os excluídos, mas os que os excluem e ameaça dia a dia, o futuro de todos os seres que aqui habitam.
Sabemos que essa estrutura de dominação e aniquilação da alteridade para com os animais, está enraizada parte na Filosofia e nos foi passado pelo rebanho social que nos precedeu, tentando colocar em nossas mentes que esse abuso é uma coisa perfeitamente normal, talvez por isso a dificuldade das novas gerações em considerar os animais, assim como o planeta, como um "Outro" a quem a ética também deva preservar. É bem mais simples encarar os animais como "coisas" desprovidas de qualquer senciência, de qualquer conotação moral, dispensados de qualquer critério de alteridade, pois mudar isso desestruturaria parte das grandes obras filosóficas, uma verdadeira heresia.
"os conquistadores dominaram o índio; os negreiros venderam africanos como "instrumentos"(...) Qual tipo de lógica dirige a argumentação de tais injustiças? Para justificar a morte de alguém, a exploração a opressão, sem a culpabilidade moral, é necessário algo que fundamente.(...) O outro é visto como alguém diferente da totalidade1."
E qual será a lógica para todas as injustiças cometidas contra os animais, qual o nosso direito como seres superiores, de infligirmos tanto sofrimento a seres que não possuem a capacidade de defenderem-se sozinhos?
Infelizmente ainda hoje, é assim que os animais são vistos , como seres diferentes da totalidade, como seres instrumentos, objetos descartáveis que nada sentem e nada desejam. Será essa a ética que a Filosofia deve buscar, ou deve ela se questionar: Quem realmente são os oprimidos?
Para responder a si mesma: Oprimidos são todos aqueles a quem eu julguei como não seres, como não outros, são todos aqueles a quem eu dominei, são todos aqueles a quem eu subjuguei e são, ainda, aqueles a quem hoje eu ainda desconsidero.
Somente a partir desse ponto, é que poderemos separar o bem, a ética e a justiça, e é sabido por todos que a exclusão é um dos maiores, senão o maior de todos os fatores, da causa de injustiças, mesmo assim nos excluímos os animais. A Ética somente será Ética quando conseguir ver o Outro sem diferenças, sem dominações ou exclusões, quando pensar realmente a partir daquele Outro ser que havia sido esquecido durante tanto tempo. A proposta é romper com toda a Filosofia antropocêntrica que desconsidera e exclui esses seres do direito que possuem ao conceito de alteridade, criando assim uma nova Filosofia de Inclusão e de Libertação.
Não queremos abandonar a Filosofia, mas usá-la como ferramenta para libertar. O que vemos ocorrendo com os animais nos impõe essa necessidade de mudar, por isso a importância da expansão do critério de alteridade para com os animais, para com as águas, para com o Planeta. Não podemos mais repetir antigos conceitos sem vivermos plenamente, a realidade cruel pela qual passam os animais.
Mas sabemos, ao mesmo tempo, o motivo pelo qual muitos não desejam exercitar a alteridade para com os animais:
"Quando se reconhece o outro como alguém, um além da totalidade, é possível uma "práxis de libertação" que procura reconstituir a alteridade, a liberdade de quem vive oprimido na totalidade. "(E.Dussel)
A liberdade de quem vive oprimido na totalidade. Seres livres do nosso jugo cruel, fim da exploração e do abuso humano sobre os animais.
Esse é o principio primordial e potencializador da Libertação Animal, e mudarmos isso exigirá muito trabalho, afinal como considerarmos, logo nós seres reinantes, que um a um animal possa ser estendido o critério de alteridade? Relembrando a frase de abertura desse artigo, que foi dita durante o último fórum de Teologia da Libertação, e que deixou claro que os oprimidos não são apenas os animais humanos, mas todo o Planeta que também é um "Outro Ser" a quem devemos estender a alteridade de modo a poder, desta forma, libertarmo-nos da opressão que causamos a nós mesmos e por conseguinte, libertar a própria Filosofia, apresentando assim uma ética material que arrebanhe todos os seres e que permita a todos o mesmo direito, o direito a vida e a liberdade.
"Aja de tal maneira que permitas que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco". (L. Boff)
E sabemos que não podemos evoluir se não mudarmos, eis a grande questão proposta à Filosofia.

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