sábado, 11 de julho de 2009

E se Michael Jackson morresse no Brasil?




por Rafael Bán Jacobsen
Desde a repentina morte de Michael Jackson, o rei do pop, em 25 de junho, pouco se tem falado de outra coisa. Dize-se à boca pequena, inclusive, que José Sarney, presidente do nosso indecoroso senado, planejava mandar uma coroa de flores ao velório do astro como forma de agradecimento por sua morte em tão providencial época, desviando a atenção de todos da sucessão de escândalos políticos que se abate sobre ele próprio, Sarney, e sobre inúmeros outros cupinchas e membros de sua quadrilha. Em especial, muito se especulou, e ainda se especula, sobre a causa da morte. Pouco se falou, no entanto, a respeito do “lado vegetariano” de Michael.
Em uma raríssima entrevista à revista Time, em 1984, o explorador, bebum e pusilânime pai de Michael, Joseph Jackson, descreveu assim o filho famoso: “Ele é muito tímido. Quer dizer, tímido diante de poucas pessoas. No palco, na frente de milhares, ele se solta. O rapaz adora animais. Tem uma lhama, dois cervos, um carneiro, uma cobra, três papagaios, dois casais de cisnes, um negro e um branco. Alguns pavões. É religioso (mais do que os irmãos) e vegetariano radical. Tem um carrinho de pipoca e uma máquina de fazer sorvete - e sempre convida crianças para compartilhar com ele essas delícias.”
Por esse testemunho, podemos perceber que Michael era vegetariano e o quanto essa postura era, provavelmente, relacionada com seu amor aos animais. Um amor ingênuo, que implica um vegetarianismo também um tanto ingênuo, despido de qualquer ideal libertário ou abolicionista (vide a compra e a manutenção de animais em cativeiro citadas pelo pai). De qualquer modo, o vegetarianismo entrou cedo na vida de Michael Jackson e tornou-se parte dela (e uma parte importante).
Três dias após a morte de Michael Jackson, um programa dominical brasileiro exibiu uma entrevista com Remi Vale Real, 84 anos, a cozinheira mineira que, por vinte anos, trabalhou para o rei do pop. Indagada sobre as preferências gastronômicas do patrão-celebridade, Dona Remi foi categórica: “Ele não comia qualquer comida. Era vegetarianíssimo e gostou da minha comidinha. Fazia panqueca de vegetais, crepe…”. Ela contou que preparava feijão preto com arroz para Michael Jackson, mas o que ele gostava mesmo era uma boa melancia.
Chegou-se a cogitar que o estresse provocado pelos preparativos de sua nova série de shows teria levado Michael à estafa, ao esgotamento e ao abuso de medicamentos controlados – uma combinação letal. Contudo o principal responsável da AEG Live, empresa de entretenimento responsável pela organização e venda de ingressos dos shows, comunicou às seguradoras que os médicos tinham examinado Michael por cinco horas e estavam convencidos de seu bom estado de saúde, especialmente por sua condição de vegetariano. O personal trainer de Michael Jackson, Lou Ferrigno endossou o parecer dos médicos, afirmando que “nunca o tinha visto com uma aparência tão boa”. Ferrigno estava ajudando Michael entrar em forma para a tal super turnê do astro em Londres, em julho. O professor contou que, em nenhum momento, Jackson se mostrou relutante sobre a decisão de realizar os shows. Lou, que interpretou “O incrível Hulk” na série de TV e é ex-Mister Universo, disse também que Michael nunca reclamou de nenhum tipo de dor e que não aparentava estar frágil. Se o incrível Hulk em pessoa diz isso, quem somos nós para discordar?
Mas o que realmente importa aqui é que tanto os médicos quanto o preparador físico de Michael Jackson confiavam em sua boa saúde, sendo o vegetarianismo um dos fatores determinantes para esse parecer. Independente de Michael estar de fato esbanjando saúde ou não, precisamos admitir que essa é uma visão surpreendentemente esclarecida e civilizada. Fico, então, me perguntando o que diriam os médicos e o personal trainer caso Michael estivesse aqui, em terras tupiniquins, onde o vegetarianismo, mais do que em países como os estados Unidos ou pertencentes à Europa, ainda é visto como coisa de doidivanas, coisa de ET, ou coisa do capeta (ou tudo isso junto). Provavelmente, o músico teria sido brindado com pérolas do tipo:
“Você está fraco, Michael. Só pode ser a falta da carne. Que tal um peixinho, pelo menos, ahn?”
“Michael, se você não comer carne, não vou poder ajudá-lo.”
“Como você quer ficar em forma apenas comendo folhas? Atividade física e vegetarianismo não combinam!”
Não é síndrome de colonizado ou qualquer coisa do tipo: é fato que, em comparação com vários outros países, especialmente aqueles chamados de “países do primeiro mundo” (vejam que coloquei o termo anacrônico e politicamente incorreto entre aspas), o Brasil ainda tem, disseminadas na sociedade como um todo, visões muito atrasadas, desinformadas e toscas a respeito do vegetarianismo. Qualquer indivíduo com um mínimo de bom senso acaba confrontado com essa incômoda realidade: ainda falta muito para termos, por aqui, corredores inteiros de produtos veganos nos supermercados, como é fácil de encontrar na Alemanha ou na Bélgica; parece ainda um sonho louco o dia em que se aprovará uma lei como aquela da Inglaterra, que institua a obrigatoriedade de haver, pelo menos, uma opção de refeição vegetariana em qualquer restaurante; surge quase como uma quimera a oferta de descontos para vegetarianos na contratação de seguros de vida, como também já é realidade na Inglaterra.
Aqui, na “Terra de Vera Cruz”, infelizmente, a esmagadora maioria dos profissionais de nutrição e medicina não sabe nada sobre vegetarianismo (ou, pelo menos, muito pouco), tendo, portanto, uma série de preconceitos arraigados, os mesmos que qualquer leigo teria. Por isso, o conselho básico de um nutricionista ou médico (guiado pelo receio e pelo desconhecimento) seria não deixar jamais de comer carne. Colocar um vegetariano nas mãos de um nutricionista ou médico é, na maioria das vezes, como colocar um alienígena nas mãos de um cirurgião (“Meu Deus! Que organismo é esse? O que eu faço?”). As conseqüências, é claro, acabam sendo desastrosas.
Por essas e outras, se Michael Jackson morresse no Brasil, eu não tenho dúvidas de que os médicos seriam unânimes na determinação da causa mortis: faltou-lhe a proteína.

Um comentário:

Luana disse...

Verdade! Não tinha prestado atenção nisso!

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