quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aquecimento global já leva populações de lagartos à extinção

O aquecimento global está inviabilizando a sobrevivência de várias populações de lagartos, reduzindo o tempo em que os animais se mantêm ativos para buscar comida e gerar filhotes, diz estudo internacional publicado a revista Science. Pelo menos 5% das espécies existentes já estão comprometidas, afirma o pesquisador brasileiro Carlos Frederico Duarte Rocha, um dos autores do estudo. Rocha é professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biologia da UERJ.

"Os lagartos têm uma temperatura máxima que toleram voluntariamente", explica ele. "Se essa temperatura é superada, eles procuram uma sombra ou um abrigo".

Com a ajuda de simuladores levados a campo na Península de Yucatán, no México, os pesquisadores determinaram quantas horas de exposição ao Sol os lagartos são capazes de tolerar antes que essa máxima seja atingida, tanto em áreas onde os animais ainda existem quanto em locais onde as populações desapareceram. "Se a temperatura é ultrapassada e não se encontra abrigo, o bicho entra em torpor e morre", diz Rocha.

O Liolaemus lutzae, espécie do RJ da qual já desapareceram populações. Luiz Cláudio Marigo/Divulgação

A conclusão foi de que há lugares que já foram habitados por lagartos mas onde hoje os animais, se ainda estivessem presentes, teriam acesso a, no máximo, uma hora de atividade antes que seus corpos comecem a superaquecer. "Na hora em que vai sair, já está na hora de voltar", resume Rocha. "Mas o animal precisa estar ativo para encontrar alimentos e copular".

Com menos horas de atividade disponíveis, os lagartos reproduzem-se menos e as populações começam a diminuir, podendo chegar à extinção. Rocha cita uma espécie que é exclusiva do litoral fluminense, o Liolaemus lutzae e da qual haviam sido registradas, no passado, 24 populações. "Dessas, sete já desapareceram".

Agregando os resultados do trabalho realizado no México a dados sobre populações de lagartos de várias partes do mundo, os autores do estudo na Science elaboraram um modelo matemático para prever o risco de extinção de lagartos causada pelo aquecimento global. Como teste, o modelo "previu" corretamente a situação dos lagartos no mundo em 2009.

Mapa das extinções locais de lagartos observadas em 2009. Barry Sinervo/Science

Previsão de extinções em 2050, de acordo com o modelo matemático. Barry Sinervo/Science

Previsão de extinções para 2080, segundo o modelo matemático. Barry Sinervo/Science

Para 2080, o cenário previsto é de extinção de 20% das espécies de lagarto do planeta. Esse desfecho ainda pode ser evitado se as emissões de CO2 diminuírem, mas a taxa de extinção projetada para 2050, de 6%, "é improvável de ser evitada", diz o texto na revista.

Rocha acredita que o fenômeno mostra que os efeitos do aquecimento global já se fazem sentir no presente. "As pessoas falam em aquecimento global como se os problemas fossem aparecer daqui a 30 anos", diz. "O estudo mostra que o processo já está acontecendo".

O pesquisador espera que a publicação do trabalho na Science leve cientistas que trabalham com outros grupos de seres vivos, tanto de fauna quanto de flora, a buscar medir o impacto que o aquecimento vem produzindo em seus objetos de estudo.

A parte brasileira da pesquisa foi financiada pelo CNPq e pela Faperj।

Estadão -

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