domingo, 14 de junho de 2009

Procura-se um companheiro fiel


A bengala é um símbolo muito forte da deficiência visual”, diz a advogada Thays Martinez, de 35 anos. “Tinha a sensação de que as pessoas me olhavam como se eu fosse uma coitadinha.” Há uma década, Thays se livrou do peso emocional da bengala e adotou algo bem mais simpático para lhe abrir caminhos: um cão-guia. Boris, um cruzamento das raças labrador e golden retriever, revelou não ser um cachorro comum. “O dia mais feliz da minha vida foi quando caminhamos por uma trilha ecológica, sem o estresse de bater nas coisas e sem a companhia de outra pessoa. Nunca tinha me sentido tão livre”, diz Thays. A parceria com Boris não só elevou a autoestima de Thays como mudou seu destino.
Em 2002, a advogada fundou o Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Iris), uma ONG que trabalha para os deficientes visuais। Vinte dos cerca de 60 cães-guia em atividade no país foram importados pelo Iris, sem nenhum custo para os usuários, graças a uma parceria com a ONG americana Leader Dogs for the Blind. “Temos 2 mil deficientes na fila de espera por um cão”, diz Thays.

Basher, um labrador amarelo, chegou ao Brasil no fim do ano passado. “Foi como se eu tivesse tido um filho. Nunca tinha me sentido tão feliz”, diz Daniela Ferrari Kovacs, de 29 anos. “As pessoas sempre cuidaram de mim. Eu não sabia que também seria capaz de cuidar de outro ser.” Basher e Dani fazem sucesso por onde passam. Na rua, pedestres param para tirar dúvidas sobre o trabalho do cão ou para elogiar a beleza dele – ou a dela. Alguns cometem o erro de tentar chamar a atenção de Basher colocando em risco a segurança de Dani. Com um sorriso no rosto e a voz doce, ela explica: “Ele é um cão-guia, não pode se distrair”. A chegada do cão fez com que as pessoas se aproximassem mais de Dani, e de maneira mais cordial. Enquanto ela dá expediente no Tribunal Regional do Trabalho, na região central de São Paulo, Basher repousa sobre um colchãozinho colorido atrás da mesa. A cada três horas, Dani desce com ele ao “banheiro”. Carrega um saquinho plástico para eventuais resíduos. Basher é um cão chique: é bilíngue (atende a comandos em inglês e português), viaja de avião, vai ao cabeleireiro, à academia e à terapia. “Se eu soubesse que um cão-guia melhoraria tanto minha vida, teria procurado um muito antes”, diz Dani.
No momento, o Iris busca voluntários para o trabalho de socialização dos cães e recursos de parceiros com dois objetivos: montar um centro de treinamento completo em São Paulo e importar animais para começar uma linhagem de cães-guia brasileiros. Outro problema, ainda sem solução, é que há poucos treinadores para os animais. A formação dos treinadores é muito complexa, dura cerca de quatro anos e, tanto quanto o Iris saiba, existem apenas três profissionais especializados em cães-guia no Brasil – um para cada escola existente no país.
Treinar um cão-guia é uma tarefa cara (R$ 20 mil) e complexa। O processo é dividido em três etapas. Primeiro, o filhote passa ao menos um ano com uma família voluntária, que tem o dever de ensiná-lo a se comportar bem em qualquer ambiente. Depois, fica de três a cinco meses na escola para aprender o trabalho de guia – como andar em linha reta, parar ao se aproximar do meio fio ou de escadas e desviar de obstáculos. Só na terceira fase o cão é apresentado ao deficiente visual, e os dois treinam juntos. Para que a parceria dê certo, o perfil do cão tem de combinar com o do dono. Um guia muito ativo se ajusta melhor a um usuário que não fique muito parado. Alguém apressado pode não se adaptar a um cão-guia com passadas lentas. De acordo com o Ministério da Saúde, há mais de 550 mil cegos e 3,1 milhões de pessoas com baixa visão no Brasil. “Considerando a proporção de deficientes visuais que usam cães-guia no exterior, nossa demanda é de mais de 10 mil cães”, afirma Moisés Vieira Júnior, diretor técnico e treinador do Iris.

A relação entre deficientes visuais e cães-guia é antiga. A primeira tentativa sistemática de treinamento teria ocorrido no fim do século XVIII, no hospital parisiense Les Quinze-Vingts. Durante a Primeira Guerra Mundial, cães começaram a ser treinados na Alemanha para guiar soldados que ficaram cegos. De lá para cá, muitas escolas foram abertas pelo mundo. As mais tradicionais selecionam geneticamente matrizes de labrador, golden retriever e pastor-alemão. Dessas raças, ou do cruzamento entre elas, saem os animais mais adequados ao trabalho de guia.
Coisas simples para quem enxerga, como ir à padaria ou dar uma volta sozinho no quarteirão, são importantes para um deficiente visual. No caso de Thays, foi o cão quem lhe deu segurança para deixar a casa dos pais e ir morar sozinha. E se encher de coragem para largar a estabilidade do emprego no Ministério Público e se dedicar a outras áreas do Direito. A relação com Boris motivou Thays a processar o Metrô de São Paulo, que proibiu o cão de guiá-la dentro da área da empresa. E a batalhar pela aprovação de duas leis – uma estadual e outra federal – que permitiram o acesso de cães-guia a locais públicos.
No ano passado, Thays notou que chegara a hora de aposentar Boris. Ele já não tinha a energia de antes. Depois de uma longa caminhada pela Avenida Paulista, Boris se jogou no chão para descansar. Em outra ocasião, Thays bateu o rosto numa escada por desatenção dele. “Foi uma decisão muito dolorosa”, afirma Thays. “Quando Diesel (o guia substituto) chegou, Boris começou a me ignorar e ficou meio deprimido. Eu pegava a coleira para sair, os dois vinham querendo colocá-la.” Há duas semanas, Boris, de 10 anos, se mudou para a casa de uma amiga de Thays. Parece satisfeito.

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