sábado, 6 de junho de 2009

O homem é o principal destruidor da biodiversidade


Em tempos de preservação ambiental, ainda nos deparamos com atos humanos que contribuem para a extinção de algumas espécies da fauna e flora brasileira.

No último dia 28 de maio, o jornal carioca O DIA, publicou dados de estudos feitos por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Instituto Biomas, que revelam 223 espécies da fauna e flora como as responsáveis pela descaracterização da biodiversidade daquela localidade.


Segundo a matéria, a única solução é a exterminação das espécies daninhas, nas quais estão inseridos os eucaliptos, jaqueiras, ratos e até animais domésticos como os gatos.

Vale ressaltar que os animais e vegetais citados na pesquisa estão agindo naturalmente, mas se, de alguma maneira isso prejudica a biodiversidade, especialmente naquele Estado, é fruto, mais uma vez, da iniciativa humana. De acordo com o médico veterinário e doutor em zoologia, Carlos Eduardo Belz, a maioria das introduções de espécies invasoras ocorrem por interferência do homem no ambiente. “As alterações que o homem causa no ambiente são as principais causas de extinção de biodiversidade e isto é inegável. Estas introduções podem até ocorrer naturalmente, mas o homem intensificou muito o problema com o comércio entre os países, a produção animal, o paisagismo, etc. Estas espécies estão agindo naturalmente sim, mas porque foram inseridas no ambiente de forma não natural e são, sem dúvida, prejudiciais ao equilíbrio do ambiente, que se não fosse pela interferência do homem, não sofreria este desequilíbrio com a intensidade e constância que temos imprimido”, explica.

O veterinário afirma ainda que a introdução de espécies invasoras em um ambiente é considerada, atualmente, como a segunda maior causa de extinção de biodiversidade. Segundo ele, quando uma espécie invasora é introduzida em um novo ambiente e encontra todas as condições favoráveis para se reproduzir e dominar os espaços, ela passa a exercer dominância sobre as demais espécies; e esta pressão faz com que, ao longo do tempo, estas outras espécies reduzam suas populações, podendo até serem extintas, levando à redução da biodiversidade local.

O biólogo e mestre em ecologia, Eduardo Novaes Ramires, também aponta o homem como um dos principais predadores do próprio meio em que vive. “Em geral somente nos lembramos das espécies invasoras quando elas causam danos econômicos e os homens estão causando um grande processo de extinção em massa de espécies no planeta. A espécie humana, além de reduzir de forma agressiva a área de vida de muitos organismos, de fragmentar seus habitats originais, de poluir o ambiente das mais variadas formas, entre outras tantas interferências bruscas, também dispersa de forma indevida muitos organismos para além de suas áreas originais de ocorrência. Fora de sua área original, essas espécies podem competir com espécies nativas do local onde foram introduzidas, algumas vezes com conseqüências desastrosas para o ecossistema onde elas foram introduzidas”, complementa.

Gatos

A pesquisa coloca os gatos como uma das 10 espécies invasoras mais perigosas do mundo e aponta como única solução o extermínio.

De acordo com Belz existe uma grande diferença entre espécies exóticas, invasoras e espécies em desequilíbrio. Ele explica que, quase todas as nossas fontes alimentares hoje, no Brasil, são exóticas. “Neste caso, podemos citar uma lista enorme de espécies que são consideradas exóticas, por não serem nativas desta região, mas nem por isso são consideradas invasoras”, orienta. Ele afirma ainda que toda espécie invasora é uma espécie exótica, mas nem toda espécie exótica é uma espécie invasora. “Para ser considerada invasora a espécie precisar exercer dominância sobre as demais espécies e causar algum tipo de impacto, seja ambiental, econômico, ou social. Em alguns casos também pode ocorrer de uma espécie que não é invasora, se proliferar descontroladamente em virtude de alterações no ambiente, tornando-se uma espécie em desequilíbrio com o meio. Isto pode ocorrer com ratos e pombos em condições específicas como em cidades, onde o ambiente se encontra completamente alterado.”

Ainda segundo ele, pode acontecer também de espécies não consideradas invasoras, em uma determinada situação, passarem a ser, como é o caso dos gatos. “Em algumas cidades, os gatos devem ser considerados apenas como espécies em desequilíbrio, mas fazer uso do extermínio de gatos seria uma alternativa muito radical, e acredito que não seja essa a intenção da administração pública”. Apesar de, em alguns casos, a proliferação desenfreada dos gatos nas cidades possa causar problemas, Belz ressalta que a melhor solução estaria na elaboração de um plano de controle. “Há várias outras alternativas para trabalhar esta questão, como educação ambiental, castramento, manejo ambiental e outras. Isto depende de empenho do poder público, o que em muitos casos, não ocorre”, atenta.


Para o biólogo Ramires, os gatos em particular são predadores muito eficientes, e podem causar grandes estragos em populações de aves, roedores nativos, entre outros, o que não é o caso dos que vivem nas ruas do Rio de Janeiro. “Creio que os gatos domésticos, alimentados com ração, não estão em risco de extermínio. No entanto os gatos que passam a maior parte do tempo caçando em matas, correm risco maior de serem objeto de extermínio planejado pelo homem”.

O que fazer?

Diante desse impasse – ao mesmo tempo em que fazem parte da biodiversidade brasileira, causam danos a essa mesma biodiversidade, perguntei aos entrevistados qual seria a melhor solução para este problema: ambos afirmaram ser uma resposta difícil e longe de um desfecho favorável ao meio ambiente.

Para Belz, o momento é de mudanças e o exemplo da presença das espécies invasoras mostra bem este período de entendimento melhor sobre o ambiente em que vivemos. “Está não é uma resposta fácil. Falamos tanto em sustentabilidade, mas na prática, ainda temos um longo caminho para percorrer até que aprendamos a conviver em harmonia com o meio ambiente. A receita não está pronta e vamos ter que lutar com muita garra para garantirmos a sobrevivência das futuras gerações, mas o que já aprendemos até agora nos mostra que o caminho é o do equilíbrio. Aprendermos a conviver em equilíbrio com o meio, sem uma postura de dominância e entendendo que fazemos parte dele será o desafio para os próximos anos” e acrescenta: “há tempos atrás este assunto não era nem discutido e agora, olhando os erros que cometemos, temos a obrigação de não cometermos mais e tentarmos, na medida do possível e com coerência, minimizarmos os problemas já causados”, reflete.

Já Ramires acredita que a solução esteja na tentativa de evitar a introdução de espécies invasoras nos ecossistemas. “A resposta não é simples, pois, sem dúvida, somos os maiores responsáveis pelas gigantescas perdas de diversidade atuais. Além disso, a proteção à natureza infelizmente não faz parte real e efetiva das prioridades políticas da maioria dos países, particularmente quando confrontada com interesses econômicos de vulto, mas creio que, seria necessário um grande esforço para evitar a introdução de espécies ditas invasoras em ecossistemas brasileiros”, avalia o biólogo.

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